Esqueci meus óculos em casa, subi pra buscar, sozinha. Todos já estavam lá embaixo. A casa trancada, como a haviam deixado minutos antes. Entrei pela porta de serviço, e como se pela última vez, olhei tudo aquilo, a lavanderia, a dispensa, os potinhos de comer e beber do Luigi, depois a cozinha; a mesa bagunçada, a pia cheia de louça suja.
Mais uma porta, e estava na sala, tudo escuro. Acendi, pra contemplar a solidão. Vi o sofá preto, a tela do índio, a sacada, e por ela, o céu ainda escuro, sem lua, me saudava. A sala de jantar. Mais uma porta, os quartos, entrei em cada um deles, mesmo sem haver necessidade disso. Cada um me trouxe uma lembrança, despertou em mim o resto de afeto que ainda me resta.
Lembrei das conversas de madrugada com o Neto, tendo aula, ou não no outro dia, a afinidade que tínhamos. Os raros momentos em que eu e a Anna fomos de fato, irmãs. Os tantos colinhos que minha mãe já me deu, a cada término de namoro, a cada briga com as amigas da escola. Lembrei do único abraço emocionado que meu pai já me deu, que foi o melhor da minha vida, as três palavras que eu nunca tinha o visto dizendo, enquanto desabava em lágrimas, outra primeira visão.
Decidi que do passado não se vive, não se deve viver. Apaguei as luzes que fui acendendo conforme me envolvia em lembranças, e fechei as portas que abri com o coração aberto. Não ia deixar que tudo aquilo mexesse comigo, nem poderia.
Desci, e em poucos minutos já estávamos em nossos carros. Eu com meus pais, em um, e os meus irmãos com seus respectivos, em outro. O dia já dava seus primeiros sinais. E enquanto a manhã apenas começava a clarear, eu cheguei realmente a me perguntar, se aquela seria a ultima vez que veria o dia amanhecendo na frente do prédio. Sempre levei algo de mórbido comigo, algo que espera pelo pior.
Com o céu já bem mais claro, decidi por lembrar de todo o muito que se passou em mim, comigo, e para mim, nesse pouco menos de um ano. Lembrei dos amigos da praia, a maioria namorando, a Bárbara com suas novidades do México, e os Conte com aquele mesmo sorriso e abraço acolhedor de sempre. Logo depois, o carnaval mais apaixonado da minha vida. Com a melhor companhia pro momento. Um reavivamento espiritual do caramba, que me levou até a pensar que seria sempre daquele jeito, aquele mar de rosas, aquele conto de fadas.
O tempo passou, e trouxe consigo as coisas mais inimagináveis possíveis. Uma bobinha ficando com meu melhor ex-namorado, o aperto que eu senti no coração quando descobri, e for fim decidi que sentir algo, não era normal. O término traumático com o atual, me deixando a beira da depressão. A partida da Giu, deixando um vazio gigante em mim e nos meus melhores fins de semana.
A amizade construída com a mesma bobinha que ficava com meu melhor ex-namorado, por puro interesse, pra descobrir como ele era com ela. Em pouco tempo, soube o suficiente: mesmo cafageste, comigo é que ele havia se portado melhor. O odiei por isso. O esqueci, finalmente, graças a isso.
O tempo em que fiquei só, por escolha, depois de ter terminado com o bonitinho. A reaproximação com uma amiga de tempos, que hoje, é a melhor que tenho. Conhecer o meu anjinho, e redescobrir o amor, tudo isso em menos de quatro meses. Conquistar, amando, a felicidade plena que sempre almejei. O mundo podia estar desabando, que eu deixava pregado no meu rosto, um sorriso esticado, que tinha dono.
O término patético, e a minha tristeza, que não permiti que durasse mais de uma hora. O coração apertado, as saudades. Seguida das ligações, tentativas minhas de resgatar o que aos olhos de qualquer outro, estava perdido.
Conhecer a Rafa, o planejar do aniversário da Érika. Readquirir a confiança dos velhos, pra logo em seguida, na pior festa do ano, perdê-la novamente. Acordar pra vida com aquela balada estúpida, e todos aqueles caras idiotas, e mudar. Absolutamente tudo.
A notícia da mudança dos Saraiva. As despedidas. A partida. E uma tristeza até então, inédita.
O conhecer pessoas novas. O resgatar constante dos sentimentos jamais adormecidos pelo meu trouxinha, nossas idas e vindas. Fazer as pazes com a melhor mãe do universo, revê-la.
No mais, sei que 2009 promete. E eu não vou deixar que ele me decepcione.
Um comentário:
"É bom olhar pra trás
E admirar a vida que soubemos fazer
É bom olhar pra frente
É bom, nunca é igual
Olhar, beijar e ouvir cantar um novo dia nascendo
É bom e é tão diferente
Eu não vou chorar
Você não vai chorar
Você pode entender
Que eu não vou mais te ver
Por enquanto
Sorria e saiba o que eu sei
Eu te amo "
ass: princess
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