domingo, 29 de março de 2009

(des)necessário

Em meio a escuridão, um vulto. Belo, atraente, e convidativo. Mas um vulto. Dele provinha uma voz gostosa, e eu fui me aproximando... Me chamou pra uma conversa, e eu não soube dizer não. Sentei ao seu lado, e começamos a conversar. Por muito tempo o fizemos, e eu nem via o tempo passar. Tinha o melhor cheiro do mundo, e as melhores teorias. Aos poucos o escuro foi ganhando luz, e eu comecei a enxergar o amor da minha vida.
Me contava umas histórias terríveis, de todos os tipos, nojentas, trites, profanas... E eu me deliciava com tudo aquilo, com aquela sinceridade mútua.
E o escuro ia ganhando luz.
Primeiro o castanho dos olhos, os grandes cílios, a sobracelha cerrada. Depois o nariz, a boca, o sorriso, os lábios leves. E eu fui realmente me apaixonando por todo aquele conjunto tímido.
Às vezes, no meio de uma conversa, entre uma piada e outra, o vulto me puxava, me apertava, e dizia me amar. Do nada. Eu ficava sem saber o que falar, dava um dos meus melhores sorrisos tortos, e dizia, sem ter certeza, que sentia o mesmo. Ou nem dizia nada. Só me calava naquele peito quente e confortável.
E o escuro ia ganhando luz.
Gostava daquela energia boa que sentia ao escutar sua voz, até quando discordava de alguma coisa que eu dizia. E como discordava. Eu fingia que entendia, fingia que aceitava, mas ia lá, no meu escurinho paralelo e continuava fazendo do meu jeito, e as coisas fluíam perfeitamente bem, como sempre fluíram. Aquela felicidade plena que a sua companhia, ainda que quase sempre ausente, me proporcionava.
Mas o escuro não parou de ganhar luz.
E hoje já vejo mais do que gostaria, muito além do que precisava enxergar. Nem é a luz que fere meus olhos, que dói e cala fundo n'alma. É ter me permitido enganar por tanto tempo. Aquela risada gostosa, aqueles olhos apaixonados nem são seus. Só uma máscara cretina, linda e barata que você colocou no rosto.

sábado, 28 de março de 2009

Disco furado

Tento parecer forte, e se com sorte, quem sabe até ser. Mas é tudo o que não tenho sido. Tento ocupar minha mente com milhares de outras coisas, mas meu coração só quer você. Meu celular não para de tocar desde quarta-feira, recebo as melhores propostas indecentes a toda hora, mas nenhuma me vem pintada de forma mais atraente que a sua.
Minha mente traz seus olhos me beijando e meu prazer guarda sua boca me testando. Os lugares, as pessoas, os olhares. Que rosto me trará seu sorriso? E que risada irritará minhas mais sérias frases? Tenho sentido falta da sua ironia petulante, das suas piadinhas mais bestas do universo.
Algo meu me fazia prestar o máximo de atenção possível em você todas as vezes que nos víamos. Talvez por eu não saber qual seria a próxima vez. Se é que haveria uma próxima vez. Decorei seus melhores sorrisos, especialmente aquele que você dava, triunfante, quando eu relutante lhe dizia alguma breguice. E que falta ele me faz. À quem pertence agora? Já pertence? Ou segue sendo meu? Tenho milhares de perguntas pra fazer, porém temo suas respostas pra cada uma delas.
Queria conseguir esquecer aquela terça-feira. Queria saber transformar esse fim odioso em força, ânimo, esperança. Mas não dá. E se você desistir de novo? E se você não me quiser mais como antes?
Aí você me vem com todas as suas táticas, as suas frases disfarçadas, tentando me reconquistar. Diz que me ama, que crê piamente que podemos ser infinitamente felizes, só que juntos. Mas ao invés de me conquistar com as frases mais lindas, você só me afasta mais. Para aonde fugiu sua certeza? E se ela se rebelar, e decidir fugir de novo? Aonde eu fico em meio à tantas fugas?
Pela milésima vez você me diz que eu só conjugo verbos na primeira pessoa, e que se fodam todas as outras. Que sou o centro do meu mundo, e que a maioria das minhas sentenças começam com ''eu quero'', ''eu acho''...
É que não me acostumei a ser o centro do mundo de alguém, aí me tornei do meu, e isso funcionava perfeitamente bem...
Bom, pelo menos até você me aparecer com esse seu sotaque manso.

quinta-feira, 26 de março de 2009

So much noise

Me disseram que nos momentos difíceis é que nos fazemos fortes, que há males que vem para o bem, e que a dor é inevitável, o sofrimento é que é opcional, e vice-versa. Tenho escutado coisas demais, o bastante pra perceber que as pessoas falam demais, e do que falam, pode-se extrair e aproveitar bem pouco.
Perdi minha força, minha fonte inesgotável de sorrisos. Mas ao mesmo tempo abri meus olhos pra tantas outras. Em um primo que eu sempre amei, mas nunca me interessei muito em manter contato, no pessoal da sala que eu tinha como colegas, e que hoje fazem bem mais do que só me pentelhar, em cada detalhezinho esquisito da minha família, e em cada pedacinho meu.
Pra cada segundo do meu dia, mil motivos pra sorrir. Acho que sempre foi assim, eu é que deixava uma porção deles passarem batidos. Tenho meus momentos de fraqueza, vários deles, tenho vontade de me encolher, virar uma bolinha, num lugar bem pequeno, bem frio, já em outros tenho vontade é de me abrir, de berrar tudo o que é bom ou ruim em mim. Tolice. As pessoas não teriam ouvidos pra me escutar, elas gostam é de falar. E como falam!
Sei que muito bem me querem, mas parafraseando um grande amigo meu, se não for eu, quem é que vai saber o que é melhor pra mim? E eu o sei.
Talvez não por completo, talvez eu só saiba o que não é melhor pra mim, mas julgo essa informação a mais importante de todas.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Passado, nosso presente

Minha noite ontem não teve lua, nem brisa, nem estrelas. Em alguns poucos minutos fui capaz de agregar o sofrimento que não tive em uma vida inteira. O coração ia morrendo apertado aos pouquinhos, implorando uma atitude minha, algum ato desesperado, apaixonado. Alguma coisa. Nada. Você vinha sendo a única força que me movia, mas toda aquela sua energia foi se dissipando, jogando por terra todas as suas teorias perseverantes e pisando na esperança contida que meu coração carregava.
Fiquei sentada no chão por certo tempo, senti sua falta imediatamente, fiz-me louca e irracional, quase ao ponto de apertar o rediscar, falar que era uma imbecilidade infindável terminarmos, que você era sim o homem pra mim, inverter os papéis, e virar a sua fonte de energia. Mas não pude. Uma força irrefreável me obrigou a silenciar. E eu fiquei ali. Um montinho de ossos e carne. Escutava meu coração batendo devagarinho, a respiração ofegante, e meus lentos passos rumo ao esquecimento.
Sempre temi fins. Nunca entendi o porque de serem tão necessários, e ao mesmo tempo, tão dolorosos. O nosso foi o que eu menos temi, talvez por julgá-lo impossível. Me acostumei com a sua presença ausente, sua voz embalando meu sono, seu sorriso bobo apaixonado no escuro de um carro, cinema, ou dos meus olhos fechados. Sua boca macia, seu abraço, seu cheiro. Ser sua.
E agora? Pra que ouvidos sua voz canta? Pra quem você liga? Aonde você vai? Com quem você vai? Que corpo guarda seu abraço? Que boca silencia a sua? Minha mente vai divagando, como você sabe que ela gosta de fazer, e eu nem me preocupo em freiá-la, melhor viajar à ficar estática, ainda presa àquela dispensa, escutando aquelas palavras tão tristes e mergulhadas em certezas.
Eu vivia brincando com as palavras, enquanto você se deliciava com as breguices mais gostosas do mundo. Você me olhava, com aquele sorriso de lábios de sempre, e eu ia me apaixonando aos pouquinhos, me doava só mais um pouquinho. Construir essas palavras me traz seu cheiro, sua voz, sua janelinha piscando no lap, e eu volto a sentir a dorzinha de ontem, ao lembrar que tais, talvez eu nunca mais volte a ter.
Queria ser mais devota, mais sincera, menos fria. De tudo, o que mais dói é a sua incredulidade nos meus sentimentos. Demonstrei sempre que pude, à meu próprio modo, do meu jeito, torto e confuso. Quem sabe um dia você me entenda. Tomara!
Por enquanto, me encho das certezas que eu mesmo construo, tudo isso há de ser por um bem (bem) maior, ainda que provável, ainda que futuro.
Isso me basta. Consome a tristeza que me consome.

Até.