Importa que se queira. E que lute os meios possíveis pra que a vontade deixe o status de desejo e passe pro rol das conquistas. (Porque doar é conquista como qualquer outra.) O ser humano nasce esperando pelos momentos em que será o que quer que seja, desde que o seja pra outra pessoa. Tudo o que eu já fui, até hoje, foi pros outros. Meu desespero, sorriso, alegria, abraço, cansaço... Já os entreguei todos. Pegando de volta toda vez, claro, mas entregando de maneira sincera sempre que o fazia.
Acho que por isso que não me enxergo toda, que sou tão perdida e tenho tamanha dificuldade em sustentar decisões.. Ainda que pegasse de volta, o que me devolviam eram apenas fragmentos do que eu havia entregue. Não dá pra tomar uma decisão acertada sem antes conhecer todos os fatos. Não dá pra decidir sem todas as partes. Não consigo raciocinar satisfatoriamente em estado menos perfeito que o da minha própria confusão (inicial).
Já me doei demais, também. O tempo todo, na verdade. Ser algo mecânica talvez facilitasse as coisas, mas não. Preciso obrigatoriamente saltar de um precipício de emoção pra desejar bom dia pra alguém, ou sorrir pra um desconhecido qualquer na rua. Não pode ser apenas um cumprimento, apenas um sorriso.. Tem que ser de corpo inteiro, com o que puder a alma e pretender o coração.
Pertencer tanto acaba fazendo que pouco seja pra si mesmo. Meus dias mais cansativos são os dias de maior amor. Em que minha intensidade (que intrínseca) dança com as doações que só amar conhece. A despeito do conteúdo, quantidade ou qualidade, doação de amor não se pega de volta. E aí que começa a necessidade que disse, antes, que todos temos em pertencer. A lacuna que o amor deixou, só amor pode satisfazer e, em um mundo de corações egoístas, você precisa dar pra só então, quem sabe, receber. O que implica em cada vez maiores e mais significativas cessões. Mas calma, copo verdadeiramente cheio é sempre aquele que se esvaziou, conforme descobri.
Ontem eu me doei em gesto de amor pela milésima vez pra um mesmo abraço. O vazio que fica dessa vez, é a certeza que ainda mais sincera que o toque, foi a entrega.