sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Rumores

Em cada texto uma pessoa. Em cada foto um suposto. Em cada saída um suspeito. E cada gesto, um suplício.
Se sigo meu caminho com relativa tranquilidade é porque já o conheço por inteiro. Passei bom tempo ferindo meu corpo e alma com os espinhos do caminho, mas não mais... Não sei se o tempo me garantiu resistência, ou se depois de muito andar, já caminho em campos limpos... Só sei que nada mais pesa. E isso basta. Fui eliminando o excesso de bagagem enquanto andava, e o que trago comigo hoje é o essencial. (Ou não.)
Como eu cheguei aqui, ou porque eu cheguei aqui, pouco importa... O que importa é aonde estou, e o quanto isso me agrada. E muito me agrada. Sinto falta de certos pedaços meus que me foram roubados enquanto andava, mas espero que as pessoas que agora os possuem estejam fazendo bom proveito deles...
Se pudesse reaver alguns, acho que só a inocência pueril, o brilho nos olhos pelo primeiro amor, e a paz que não se faz constante já há algum tempo. Sem mais.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Meu muito obrigada.

Te olhando assim, pela milésima vez, de longe, e agora, você não me parece mais tão bonito. Na verdade, sua beleza parece lhe ter escorrido por entre os dedos... Te deixando nu, e sem nem um resquício de tudo aquilo que era lindo e seu. Você provavelmente nem viu acontecer... Deve ter sido entre uma cerveja em um bar qualquer e um filme no único cinema da sua cidade. Aconteceu. As pessoas já me alertavam sobre isso há tempos, eu que preferi duvidar das palavras delas. Mas aconteceu. Não foi como eu esperava que seria, com aquelas lágrimas que eu imaginei que derramaria, com seu abraço desajeitado e nosso beijo torto. Foi. Simplesmente.
Acho que você sabia que isso aconteceria desde o começo... Você sempre soube das coisas antes de mim. Sempre lidou com elas antes, me dando tudo resolvido. As crises que tínhamos, e que eu só ia me dar conta quando você já tinha acertado tudo por nós dois... Você sabia, meu amôzinho. E obrigada por ter deixado a surpresa e sua delícia pra mim. De coração. Nem em mil anos eu diria que saíria de nós pra entrar em uma existência tão leve, limpa, e clara.

domingo, 16 de agosto de 2009

Até... quando?

Não preciso de proximidade. Não sou muito fã de contatos. Nem de constância. Vai ver é por isso que ainda - e tanto - te amo. Meu mais doce sonho, que sempre me tira - bonito - dos meus maiores e mais terríveis pesadelos. Se tudo apertar eu corro pra você e tudo certo. Se eu quiser me apaixonar, sem esforço, sem traumas, só fechar os olhos e lembrar dos seus beijos nas minhas melhores tardes. E não é difícil. Não é difícil lembrar. Me apaixonar. Te querer. E se a carência bater, eu saio, e escolho qualquer um pra me fazer companhia durante a noite. Ele pode beber até cair, eu não me importo. Não quero que elabore as frases mais eloquentes do mundo, só quero que fique ali, me olhando com cara de idiota e encantado por eu não beber, não fumar, e por ter um jeito imponente e até arrogante de andar. Não preciso que me elogie, que fale dos meus olhos e do meu perfume novo. Nem da blusa que eu paquei uma pequena fortuna só pra ocasião. Já tô cansada de saber de cada qualidade e defeito meu. Não quero que fique enxendo meu copo toda hora, eu quero andar, porque o cheiro da boca dele tá me dando ânsia já há algum tempo, e eu preciso de ar. Finjo que meu telefone toca e saio de perto. Um cigarro. Uma olhada mal intencionada e forjada pra um bonitinho qualquer, só por tempo suficiente até eu me cansar desses joguinhos e voltar pro meu bestinha baba ovo. Não me importo. Não me importo. Que ele só coloque seus braços no meu ombro quando eu disser que tô com frio. E tente me beijar só quando eu disser que quero. Que não queira andar comigo de mãos dadas, não faz meu tipo. E que entenda se eu negar quando vierem me perguntar se temos alguma coisa.
Agora sua namoradinha tá nervosa, olha lá, ela não pode ver que estamos conversando que já arruma, apressada, uma desculpa pra vir falar conosco. Vá dar atenção pra ela, vá. Eu não me importo. Eu não me importo. Só que se eu o olhar nos olhos ele já sabe, vem, e vem me pegando pela cintura, me falando umas breguices no ouvido pra eu fingir que tô gostando pra fazê-lo feliz.
A noite já tá acabando e eu já ensaiei beijar uns três caras diferentes. Sempre desisto.
Não sei brincar como você, coração. Não com a gente... Os outros? Ah! Com os outros eu não me importo. Eu não me importo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Seus passos ritmados como sempre. Ela sabia que era ele quem chegara pelo barulho de seus sapatos no assoalho. Fingia que nem ouvia. Ele sabia. Entrava no cômodo em que ela estava - e ele sempre sabia o cômodo em que ela estava - e a surpreendia com um beijo na nuca, um abraço, a pegava pela cintura e a suspendia no ar. Eles tinham aquele amor que o mundo todo buscava. Sabiam disso também. Sentiam-se imensamente privilegiados por se amarem tanto assim, e eternamente gratos à força externa que os tinha apresentado. Se era o destino, se Deus, se acaso... Nunca saberiam. Mas não se preocupavam. Tinham coisas mais sérias com o que se preocupar. A compra do supermercado, por exemplo. Que livro comprar depois de terem terminado o que liam. Que filme locar no final de semana. Com que casal de amigos sairiam. Divertiam-se quando viam que todos se esforçavam pra parecer perfeitamente bem, tudo pra competir com a sincera harmonia com que eles viviam a vida. E o amor.
Melhores amigos desde o segundo que se conheceram. Sem brigas. Sem traumas. Os bilhetes dela nos bolsos de seus casacos, rodapés de livros, revistas, jornais... Lembrando-o que muito o amava e que sem ele a vida não seria o que era. E ela não poderia aceitar do mundo nada menos que ele. Como se contentar com pouco quando já se teve muito? E tinham.
Mas a alegria perde toda sua essência quando não se precisa lutar por ela. Quando não vem acompanhada do gosto de ter sido conquistada. O mundo não os acostumou a ganhar as coisas de bandeija. E eles ganharam.
Certo dia ele acordou mais cedo, e não a beijou. Ela acordou minutos mais tarde com o barulho do chuveiro. Tomaram café da manhã sem nada dizer. Foram trabalhar. No almoço só decidiram quem ficaria com o que. Ela ficou com tudo.
Com a porta fechada, do cômodo que ele sabia qual era, ela escutou seus passos no corredor, acompanhados do escorregar das rodas da mala. O bater da porta. O silêncio da despedida que não deram ficou ecoando por longas semanas pelo apartamento. As palavras que não foram ditas escritas nas paredes. E o último beijo que não foi dado nos lábios dos dois. Mas foi assim.
Fim.
Ou só até.

sábado, 8 de agosto de 2009

É o que tem pra hoje

Gosto do cheiro de cigarro da sua boca. Da sua vodka em latinha de suco porque você ainda é novo pra beber. Sei que nunca daríamos certo e vai ver por isso que tô aqui, assuntando. Delícia mesmo, pra mim, é só no errado. E você definitivamente não é homem, não pra mim, e por isso nos damos tão bem. Porque eu consigo ser eu por não ter a mínima intenção de agradar, e no final acabo agradando tudo, por ser mulher demais pra você.
Você deixa a barba sem bigode que eu gosto, e compra o chiclete que eu adoro. Fica me olhando sem reação enquanto converso com os caras pq sabe que eu mexo o mundo inteiro, mas acabo preferindo pegar ninguém. Vive se gabando das meninas que se prostrariam de joelhos se assim você
solicitasse, que é pra eu ver que tem gente te querendo também... Tudo porque você é bom, bonito, e gostoso demais. Tem a sua cara de nada, quando um conhecido (bêbado) seu decide dar em cima de mim.
E tem esse seu cheiro, que é único e que fica em mim sempre quando você, ou eu, estamos carentes demais. Seu beijo é bom, e suas mãos me respeitam sem eu nem precisar pedir que o façam. Você ainda é meio besta e não tem nada a ver com os caras que eu tô acostumada a sair. Mas é com você que eu tô saindo agora. Nem carteira você tem, e por isso meu coração gela toda vez que passamos por um carro da polícia. Tem aquelas meninas que se dizem loucas pelo seu jeito, e no final eu acabo sentindo ciúmes de você, mesmo sem nada - ou bem pouco - sentir. E as suas brincadeiras me tiram do sério pela inconveniência e constância, mas, mesmo assim, eu consigo gostar de você. Porque já te considero um dos meus melhores amigos, e é por você que eu me apaixono quando não tem ninguém interessante o suficiente pra ocupar meus pensamentos. Te esquecer é coisa fácil pra mim, é só me concentrar no fato que você só é interessante quando eu quero te imaginar assim.
E nunca mais.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sonhar é preciso...

Sabe, menino, nesses últimos dias a saudade tem se feito constância. A solidão também. Mas eu não anseio por nenhuma companhia senão a sua. E, sempre que acompanhada, me descubro fugindo em pensamento pro nosso sossego. Vou longe nessas minhas fugas... Se me beijam imagino o abrir meus olhos pro seu mundo, e se alguma mão me encosta tentando gerar em mim qualquer coisa mais intensa que frivolidade finjo que esta é sua. Nunca é. E sempre acabo descobrindo que não... E sinto nojo. Muito.
Aí eu te busco. Te desejo. Infernizo. Possuo. Me realizo!
Me enrosco em você e nas nossas complicações pra não deixar nosso amor morrer. Te desenho. Recupero. Nos ressucito. Sonho, sonho meu. Melhor deles... Fazes-me dormir sonhando e acordar sorrindo. E isso me basta! Não preciso de mais nada, nem de mais ninguém. Se por agora pra você não der, tudo bem. Se ninguém mais me tentar, tudo bem. Deixa estar, deixa estar...
Vai ver a delícia mora no sonho, não na concretização... Só o tempo pra me mostrar a verdade sobre isso (e muito mais.).

No fim, acabo por me deixar morrer na distância que separa a intenção do gesto.