quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Amélia.

Seu sorriso era quase como o sol nascendo preguiçoso em uma manhã nublada; ia se mostrando devagarzinho, e irradiava sua luz em tudo que estivesse ao seu alcance quando finalmente se fazia ver. Tinha olhos enormes, cílios bem marcados e a sobrancelha dançava harmoniosamente com os dois. Não era dona de nenhum tipo de beleza óbvia; sem covinhas nas maças do rosto ou muito nítidas nas costas, músculos torneados ou feições perfeitas. Era apenas ela. Um jeito premeditadamente provocante de fazer algumas coisas, os cabelos lisos bem escuros que pendiam até a cintura, o modo gracioso que andava e a delícia em que introduzia a todos quando despreocupadamente mordia forte seu lábio inferior.
Seus olhos sempre vinham carregados de certo brilho, como se a cada instante conhecesse um novo amor. E tinha algo na maneira com que abraçava as pessoas que não fazia justiça com os outros. Ela sempre me dizia que tinha aprendido a abraçar com fulano, depois ciclano... Fato é que seus abraços nunca eram os mesmos. Todos sempre me mandaram algum tipo de mensagem. Quando me tocava a nuca entendia que queria me fazer suspirar (e conseguia); quando simplesmente se deixava abraçar, cotovelos dobrados e cabeça aninhada em meu peito, entendia que queria que eu a amasse, que as coisas estavam difíceis demais até pra serem ditas; nas vezes em que entrelaçava seus dedos aos meus, e colocava nossas mãos nas minhas costas, lia que queria que fosse só dela pelo menos por aqueles momentos e uns poucos seguintes.
Gostava quando se encantava com coisas pequenas, acho que me fazia ver a simplicidade que era dela mas que o mundo desacreditava... Uma criança tendo sua atenção desviada por uma coisa a toa. Velhinhos caminhando de mãos dadas. Mãos dadas. Mãos dedilhando instrumentos, arriscando notas e fazendo sons. Gargalhadas sinceras. Histórias repetidas e lendas antigas... Ela gostava de pessoas e embriagava sentimentos com tudo que recebia delas. E estas são apenas algumas de suas peculiaridades pelas quais me apaixonei.
...
Esses dias ela se deixou abraçar pelos meus braços cansados e corpo todo apaixonado e disse, ''Me ama assim pra sempre?'', suspirei. ''Você é o melhor amigo que eu poderia ter no mundo, obrigada!'' - completou.

Amélia é a mulher da minha vida. E nunca soube disso.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Mexeram na minha estática

As músicas que me são cantadas atingem feito flecha áreas não pretendidas pelo intérprete... Qualquer uma me leva até você. Fecho os olhos pra alcançar uma nota mais alta, e seu rosto explode na minha mente. Olho pra cima, e a lua me leva até nós dois. Minha mão na mão de alguém; suas mãos por toda a parte. Talvez seja pra sempre assim, talvez não... Quem sabe um dia suas manias sejam apenas uma parte cansada e distante do meu passado, e quando eu olhar pra trás, só enxergue traços mal feitos do que fomos nós. Ainda não é assim. Mas não sei até quando... Já nem consigo me lembrar perfeitamente da melodia da sua voz ao telefone, do som acalentador da sua gargalhada, ou da cara que você faz pra se olhar no espelho. Isso me assuta um pouco, sabia? Seu jeito com as coisas tem sido meu lugar seguro no passar dos meses. E se eu não me lembrar mais? Pra onde corro quando os problemas sufocarem e eu precisar respirar leve de novo...? Nunca te quis por perto por egoísmo; só porque você me fazia bem. Sempre acreditei fazer-te também. Sinto muito por não ser assim. Sinto muito o tempo todo.
Mas se antes não dava pra você, agora não dá pra mim. Não é como se isso fosse só um joguinho que eu goste de fazer; uma hora caça, em outra caçador... É só meu jeito pra agora e pra tudo. (Re)Fiz minha vida sem você. E as coisas tem estado assustadoramente boas... Ainda não boas o suficiente preu não sentir sua ausência antes de dormir, ou afastar você das minhas mais sinceras e devotas preces. Só estão boas. Consigo sentir aquela paz e sorrir sincero e com o coração aberto. Deixar-me ser vista pelos outros e ver também... Tenho visto boas almas nos mais questionáveis abrigos. Abraços confortáveis nas mais diversas ocasiões. E ocupado meu tempo sorrindo gritado, falando o que me parece certo e olhando pra cima a todo instante.
É. Talvez seja isso... Pedi livramento, bem que me disseram que seria concedido.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Interior.

A paz de espírito me inunda toda vez que me lembro que não devo nada a ninguém a não ser a minha própria consciência; por ser essa a única a poder me acusar perante Deus. No fim, as pessoas vão sempre falar alguma coisa... Seja a cor do seu esmalte que não combinou muito com a roupa, a maquiagem que deixou a desejar, o namorado novo que não é nada bonito, a sinceridade que é demais... Não importa o quanto você faça e se esforce, sempre haverá do que se falar.
O segredo é não se esforçar. É ser tudo aquilo que originalmente se pretende ser. E exalar toda a essência que o ser exige.
A paz de espírito me inspira toda vez que me vejo fazendo meu caminho sozinha, que não há pessoa suficientemente competente pra me fazer mudar de direção ou escolher uma curva que eu não queira. Seria bom ter alguém ao lado, caminhar de mãos dadas, comentar a paisagem, as pessoas, os olhares. Mas só aceito que me acompanhem o andar aqueles que me impulsionem pra frente, em direção ao céu, ao sol, à satisfação plena de todos os sentimentos bons que se tiveram notícias.
A paz de espírito me penetra a alma toda vez que penso que tenho escolhido boas coisas. Que todo o tempo fiz boas escolhas. Certas ou erradas, me trouxeram até aqui. Me concederam o conhecer um Deus que ama e perdoa apesar de tudo; uma playlist com mais de setenta intérpretes; dois idiomas fluentes; um par de olhos brilhando constantemente; uma risada sincera pra tudo e qualquer coisa; excelentes amigos; uma família unida e linda em suas peculiaridades; uma habilidade deliciosa de esquecer as coisas; uns milhares de lindas fotos; feições honestas e um grande amor pra cada dia.

A paz de espírito me domina sempre que posso olhar pra dentro e sentir certo orgulho. Da minha fé, minhas coisas, meu jeito, meus amores... Que seja sempre assim.

domingo, 3 de outubro de 2010

É quase como se o destino tivesse nos programado pra não sermos.
Ou o exato oposto disso. Mas se não o destino, são nossos orgulhos que se chocam e nos impedem de qualquer coisa que nós dois.

Então, agora, enquanto as coisas ainda estão frescas e doloridas, é minha vez. Não destino, nem por orgulho; por cansaço. Entrego os pontos e nós dois nas mãos de qualquer um que não as minhas.

Até sua maturidade aflorar ou minha paciência ser reabastecida.