sexta-feira, 29 de maio de 2009

Ecos da dor...

Agora que nós sabemos de sua grandeza, agora que seu nome é conhecido em todo o mundo, parece estranho que essas minhas palavras sejam verdadeiras. É como se uma insignificante e perecível velinha de sebo se referisse ao sol eterno em sua trajetória pelo céu dizendo: ''Éramos companheiros constantes quando ainda jovens velas a tremular juntas.''
(L. de Conte sobre Joana d'Arc)

A vida me arranca as palavras sempre que me submete à grandes perdas. Assim, de forma simultânea, dolorosa, e agressiva. Somem de mim todas as letras, acentos e pontuações, e eu já não consigo formular uma frase sequer. O que sai, sai descuidado, desavisado, sem propósito e inseguro. Não parece mais comigo. Não tem mais aquela certeza. Nada tem. Tudo teme.
Se bem que eu nem sei se quero falar, se quero conseguir escrever, se quero me ver. Tenho medo do que eu possa dizer, das palavras que eu possa vir a formar, e do que eu possa enxergar. Tenho medo de desafinar, de estar com a boca suja, de minhas letras saírem tortas e desalinhadas, e de estar feia e magra e triste demais.
Mas lembrando assim, como eu gosto de lembrar, talvez eu consiga me fazer feliz só um pouquinho, e agora de verdade, não forçado e enjoado como tem sido ultimamente. Lembro dos olhos azuis clarinhos, dos cabelos loiros com a raiz por retocar, da pressa quase urgente, dos recortes de jornal com as receitas que você nunca usou. Os retalhos da fábrica. As milhares de fotografias. As histórias impagáveis, tristes e cômicas ao mesmo tempo, porque com habilidade maestral até seus sofrimentos você transformava em piada. Os milhões de potinhos de margarina no freezer, tudo pelo prazer inexplicável de abrir e ver o que tinha dentro...
Tenho tantas lembranças. Mas as últimas que tenho, e que por mais que muito queira e tente, não consigo apagar, se passam em uma cama patética de hospital, seu corpo coberto por fios e sua vida mantida por eles. Até lá fazia piada, como pode?
Não é como se eu não tivesse tido oportunidade para me despedir, tive várias, contudo, me pergunto se realmente aproveitei sequer uma das muitas que me foram dadas... Os deveres pareciam pular na minha frente. Não sabe o quanto me dói saber que eu poderia ter feito tanto mais, e não fiz.
Eu estava lá quando tudo aconteceu. Lembro-me da notícia dada pela médica, a oportunidade de nos despedirmos, já que sua partida era certa e prevista praquela mesma noite. Meus passos frágeis, e toda a fragilidade do mundo personificada e gritando na pessoa mais viva que já conheci. Presenciar tanta vida esvaindo doeu a alma. Ainda dói. Não entendo muito bem tudo o que aconteceu. Até agora. Até quando?
Eu estava lá quando os aparelhos indicaram que pra nós, ela não mais estaria. Estive lá, e aqui, o tempo todo. Só não soube tirar o devido e merecido proveito do muito que me era oferecido pela sua simples presença. Porque? A medicina não me dá explicações boas o suficiente, qualquer coisa que sanasse minhas dúvidas. Que aniquilasse esse ponto de interrogação doído e gritante que tenho cravado no peito, que segue me matando aos poucos e em silêncio. Acho que essa morte interna é mais uma das minhas tentativas de me aproximar do impossível.
Minha mente ainda evoca seu nome. Constantemente. E meu coração implora pela sua presença. Devotamente.

E incansavelmente inocente.

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