Você me viciou em te ter, e bem que me avisou que eu iria me arrepender. Talvez eu tenha te dado pouco valor mesmo. Talvez não tenha dado nenhum. Mas é que eu já tava cansada de sair me doando por aí. E você parecia feliz e satisfeito se entregando sem nunca receber nada meu. Porque não me disse nada antes? Porque permitiu que eu fosse assim? Eu podia ser a menina que te ligava desesperada e enciumada porque já tinham quatro horas desde a última vez que você ligou. A que não deixava, ou ia junto, quando você fosse jogar bola. Que morreria caso você dissesse que ia à uma festa com dois dos seus amigos mais solteiros. A que sentia prazer até com o seu mijo. Você quem me fez assim. Esse ser oculto que só sabe conversar com o vácuo e o escuro da solidão. Eu podia ter aprendido a conversar com você. Podia fazer uma vozinha brega quando você me ligasse, podia te chamar de amor, bebê, príncipe, e o diabo. Podia ter sido tanto, e agora sem você fico aqui me sentindo nada.
Pela milésima vez minhas mãos estão atadas, e eu sei que os dados ainda estão rolando, mas você bem sabe como eu nunca acreditei muito nesses jogos de sorte. Não confio em mais ninguém. Nem em Deus. Até minha fé você levou quando foi embora. Devolve? Me traz esse pedação meu que você sai exibindo por aí, ele tá fazendo falta. Traz minha paz, minha leveza de ser, minha autenticidade e minha vontade de permanecer? Eu preciso ser eu de novo. Preciso me amar de novo. Mas já não dá pra me achar linda se você não falar, não dá pra achar minha barriguinha (que já foi liquidada, aliás) um charme se você não ficar falando isso over and over again, meus olhos nem são mais tão azuis, sabia? E meu nariz cresceu uns dez centímetros desde a última vez que você falou que ele era lindo demais, que não tinha a mínima necessidade de eu fazer cirurgia nele. Agora ele não tá mais charmoso. Tá feio, estranho, desproporcional.
Eu cresci, também, sabia? Minhas roupas não ficam mais legais, e eu não sei aonde enfiar as quinze mil polos que eu comprei pra desfilar pra você. Elas não me suportam mais. Eu não me suporto mais.
Escrevo esses absurdos e você nem deve ler. Mas tudo bem. Já me acostumei a andar gritando por aí, sem nunca ter alguém pra escutar. Você sentia quando eu estava triste, lembra? Será que ainda sente? Cuida de mim. Me traz de volta, por favor?
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