Nada me passa despercebido. Sempre assisti, sem piscar, ao filme que fica passando, pra quem quiser assistir. O meu filme. Não tem script, nem hora pra acabar. E é de graça. Eu sou a protagonista, e prefiro assim. Abomino aquelas pessoas que permitem que terceiros sejam personagens principais dos seus filmes. Embora eu adore ser. Do meu, e do de outros.
Assisto tão atenta, prestando tanta atenção, que às vezes, apesar de ter essa suposta imprevisibilidade, eu simplesmente sei como vou lidar com certas coisas.
Mas eu não posso parar. Não posso interromper o filme, e explicar aos poucos que me assistem, e aos muitos que comigo contracenam, que certas atitudes são simplesmente inaceitáveis. Não posso apertar o pause e berrar pro idiota em questão que se eu não notar mudança de postura, ele vai ser descartado. Até posso. Mas não é de mim. Eu não sou assim. Gosto de pensar que as pessoas dão seu melhor, que eu é que sou insaciável, impossível de agradar. E quando vejo que não estão dando, nem tentando, eu os vou colocando de lado, aos pouquinhos, ainda que inconscientemente, até os expulsar por completo da minha vida, ou os chuto, bruscamente, sem dizer frases bonitas e ensaiadas de despedida nem nada.
Terrível, mas não é só ao meu filme que eu assisto atentamente, presto bastante atenção no dos outros também, aqueles que eu deixo fazer parte de algumas cenas. O bastante pra sentir como comigo, como se fossem eu, o que irão fazer, o que estão pensando, arquitetando, e quando estão mascarando. No último caso, eu simplesmente os descarto do meu elenco. Não visto máscaras, porque diabos aceitaria que as vestissem para mim?
Me conheço tanto, que posso prever quando, porque, e como as coisas vão terminar, quando elas nem mal começaram. Isso me dói. Muito. Sempre li que auto-conhecimento é uma das melhores - senão a melhor - das coisas pra se ter na vida.
Pra mim não. Eu queria me desconhecer um pouquinho, pra não ficar sofrendo com o fim das coisas.
Antecipadamente.
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