Tô cansada.
Cansada dessa merda toda que tá acontecendo. De tentar resolver tudo, abraçar o mundo com as mãos, enquanto com as pernas me seguro em um galho que já tá velho e fraco, e que quando quebrar de vez, vai me fazer cair em um precipício. Posso escutar em alto e bom som que meu pedacinho de árvore tá rachando. Tento olhar pra qualquer lugar, menos pra baixo. Mas não dá mais, eu tô de ponta cabeça, tentando salvar tudo, como sempre. Só o que enxergo é escuridão. Nem um resquício de luz que seja. Nada. Tudo que eu sinto é frio, daqueles que chega a doer, de tão frio que é. E fede. Céus, como fede.
Tento me mexer, reagir, e escuto o galho rachando mais um pouquinho. E mais um pouquinho. E mais um. Não dá pra dormir, dormir seria relaxar a mente, dar descanso pro corpo. E o meu simplesmente não pode descansar. Porque aí meu mundo vai cair das mãos, e eu vou soltar os pés do meu velho galhinho. Quero comer, mas tudo dá vontade de por pra fora. Tô com vontade de gritar, mas vai que eu grito alto demais, e acordo as pessoas que dormem tranquilas, às minhas custas? Tô com vontade de chorar, mas tenho medo da lágrima escorrer, e eu não escutar ela pingando no chão. Tenho medo de não parar nunca mais.
Aí eu vejo uma luz, como se pelo buraco da fechadura de uma porta que nem existe. Tão pequena. Mas tão intensa. Tão... tão! E ela vem se aproximando, chegando mais perto, dissipando cada vez mais aquele escuro todo. E como é bonita. Mas não para de se aproximar. Eu peço, imploro. '' Tá doendo meu olho, pára! ''. Até que me cega pra todo o resto, e eu não enxergo mais nada. Descubro então que escuridão de luz é pior que a de escuro. Quero fugir de tudo aquilo. Quero meu escuro de volta!!! Enxergar demais dói.
Sem pensar em nada, nem ninguém, abro mão de tudo, e as uso pra tampar os olhos. E meu mundo cai, mas ao contrário do que eu pensava, em fração de segundos eu escuto o barulho daquela massa pesada e redonda quicando no chão. Solto os braços, e com as mãos consigo sentir a terra firme. E como tava perto. Feito ninja daqueles filmes engraçadíssimos de tão podres do Jackie Chan, dou um mortal, e sinto meus pés firmados.
E o mundo continua quicando e quicando. Eu rio. '' Os idiotas tavam mesmo precisando de um chacoalhão pra acordar pra vida! ''. Pego ele nos braços, coloco no chão com calma, feito mãe colocando filho que acaba de pegar no sono, no berço. '' Ufa! Ela taí pra salvar a gente de novo. ''. Dou uma andada, como se analisando tudo aquilo, abaixo, e me ergo de novo, como se mirasse... E chuto, com força que nem sei de onde tiro. Tão forte, mas tão forte, que nem vejo aonde é que vão parar.
Agora sim. Despreocupada, sem ter ninguém pra cuidar, além de mim mesma, vou caminhando, cantando, feliz da vida.
Um comentário:
MARA!
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