Posso me gabar de ter feito boníssimas amizades no decorrer da vida, de ter conhecido pessoas maravilhosas (essas sim merecedoras do título). Mas eu sempre gostei de anunciar uma amizade em especial: minha melhor amiga desde a quarta série.
Adorava ir na casa dela, porque ela tinha a melhor família do universo. Os melhores pais, os melhores avós, e os melhores tios. Eram como se meu refúgio. Corria pro colinho da mãezinha quando tinha problemas com a minha. Ela sempre me recebia com aquele sorriso gostoso, os braços abertos, os melhores conselhos, e ângulos pelos quais eu jamais olharia. Adorava poder conversar sobre tudo, sem temer nada. Sem temer que contassem pros meus pais, que fizessem piadas dos meus problemas que pareciam tão infinitamente maiores que eu sem de fato serem.
Gostava de ir lá pra poder falar sem controlar o volume da voz, poder correr, gargalhar, e até nadar pelada se me desse vontade. Não eram libertinos, eram amigos. Muito mais amigos do que pais, e eu adorava aquilo. A amizade foi escapando pelo vão dos dedos conforme o tempo foi passando. Contudo, nunca perdemos o contato. Uma vez por mês a gente se falava, se atualizava, e tudo parecia nunca ter mudado. Nem um ponto, nem uma vírgula. Éramos aquelas bobinhas da quarta série novamente. Com os tênis e cadernos iguais. Uma terminando a frase que a outra começara. Como se ela nunca tivesse mudado de escola, como se tivéssemos nos visto cinco horas antes, no pátio da escola, com a lancheira na mão.
A gente sempre se entendeu melhor que qualquer outra pessoa do universo. A gente sempre se conheceu bem demais. Sempre. Mas o tempo passa, e as coisas mudam. Mudam-se sentimentos, convicções, e (porque não?) pessoas inteiras.
(Porque?)
Não que eu fizesse dela pessoa melhor, ou pior. Fazia dela minha amiga, parecida comigo, somente.
Desses três anos que não mais nos vemos todos os dias, nossa proximidade atingiu seu ápice nesse que acabou de terminar. Não lembro exatamente porque. Devia ter terminado com um namorado qualquer, era pra ela que eu sempre ligava quando isso acontecia. Nos aproximamos, saíamos juntas, o orkut anunciava que éramos uma novamente.
Mas o destino resolveu interferir, e se mostrou mais zombeteiro que nunca. Em uma ligação, os respectivos e atuais namorado e sogra, conseguiram massacrar tudo o que eu sentia. Cuspir em tudo o que era nobre e despertado por aquela amizade de anos. Nunca encontrei explicação pra tudo o que foi dito naqueles poucos mais de dez minutos. Ainda que tenha perdido horas nisso. Aquele amontoado de insultos, palavrões, e ameaças. Podia imaginar meus olhos nos deles, em lágrimas. As risadas que a mais nova amiga devia estar dando. O quanto deviam todos estar achando tudo aquilo proveitoso.
Duvidei do caráter que eu sempre defendi, pela primeira vez na vida. Me senti uma idiota completa, enquanto chorava feito bebê em cólicas depois que desligaram. Me odiei por ser capaz de derramar uma lágrima que fosse por pessoas tão indignas.
Em uma semana, erroneamente pensaram-se perdoados, julgaram o acontecimento já esquecido. A '' mãezinha '' voltou a me deixar aqueles scraps com aquelas frases sem aspas que nem dela são.
Como se não fosse nada.
Mas foi.
Foi muito.
Foi tudo.
Gota d'água.
Pra sempre, e nunca mais, né?
NÃO! Tenho mania de perdoar todo mundo, mesmo que não me peçam desculpas. Mesmo que não mereçam. Hoje à tarde, envolta em um sentimento bom, fui falar com a minha grande amiga, desejar feliz ano novo, que fosse feliz nessa vida nova que não mais me inclui. E quem sabe... quem sabe voltaríamos a ser o que éramos, sei lá!
Não respondeu. Eu esperei. E ela não respondeu.
Como se eu tivesse errado, como se eu tivesse ferido.
Cliquei com o dedo trêmulo no botão direito do lap, '' Excluir contato ''. Sem bloquear, só excluir. Pra não ver. Pra esquecer.
Agora sim... Pra sempre, e nunca mais.
Adeus!
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