Minha profundidade de alma não grita como antes.
Meus sorrisos não são mais tão belos, nem tão esticados, nem tão constantes.
Desenvolvi um tique chato na perna direita e ela não para de tremer e irritar há dias.
Emagreci bem uns 90 quilos, e de uma forma ou outra, foram todos parar bem no centro e nas laterais extremas da minha barriga. Tô parecendo aquelas magrelas horrendas e corcundas, com marca de calça jeans baixa. Se é que já não sou uma delas.
Ao redor dos meus olhos não se pode agregar mais escuro, nem mais esquivos, nem mais lágrimas.
Respiro pesado e ofegante de vez em sempre, como se um elefante tivesse sentado no meu peito, ou como se eu tivesse feito o trajeto da Corrida de São Silvestre inteirinho, sem respirar uma única vez, e do nada resolvesse parar pra inspirar com força.
Meu coração bate sem ritmo o tempo inteiro, mas só às vezes eu paro pra escutar a sinfonia patética que ele forma. Orquestra Sinfônica do Descompasso e do Tédio. E da dor. Como pude me esquecer da dor?
Minhas roupas são sempre as mesmas, apesar de eu não ter mais onde enfiar uma peça que seja no meu guarda-roupa lotado e arrumado por cores.
Meu celular tá tocando toda hora, e isso tá me enojando. Queria que ele tocasse duas vezes só. Sem mais. Uma de manhã, com uma voz embaralhada e sotaque manso me dando bom dia, e outra com a mesma voz e o mesmo sotaque me provocando ciuminho e me contando como é que se sobrevive um dia inteiro sem a minha agradabílissima porém sempre ausente presença.
Se paro pra pensar na vida vejo que a minha está por um fio.
E sigo enroscada por fios.
Um do laptop que não aguenta mais que uma hora sem a merda da bateria.
Cabos USB. Dois deles. Um pro i-Pod, outro pro celular que não tira fotos mesmo sendo digno das minhas melhores, e pra passar músicas pra ele, já que eu sou considerada uma espécie de aberração por escutar qualquer coisa que me construa auto-estima, e que acrescente conhecimento. Aí não posso pegar músicas via Bluetooth do celular dos meus amiguinhos. E isso me irrita profundamente, porque ao que tudo indica, todo mundo faz isso. Menos eu. Porque eu escuto qualquer coisa que não seja sensual, com uma batida aguda e dançante, que te faz sentir uma putinha barata, e ao mesmo tempo a mulher mais gostosa e desejada do universo inteiro. E todo mundo faz isso, pelo menos é o que tudo indica. Quer dizer, todo mundo, menos eu.
O carregador pro celular cuja bateria que imitando a do laptop, não dura tanto quanto prometia.
Fiozinhos bonitinhos que estão hiper na moda e que eu uso pra amarrar o cabelo. Uns courinhos que minha mãe comprou pra eu usar como pulseira porque ela leu não sei onde que tava hiper na moda também. Tá tudo dentro da minha bolsa. Tô esperando a moda passar, pra eu poder usar. Detestaria sair na rua e ver alguém com um courinho amarrado no braço igual ao meu.
... (?)
Juro que tô quase passando uma tesoura nesses trilhões de fios. E isso inclui o finíssimo que me prende e sustenta nesse tédio todo.
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