É sempre assim.
Dançamos ao som da mesma música já há quatro anos, menino. O ritmo já me cansou, ficar dançando quase todo o tempo, e sentada esperando sua boa vontade também. Já trago calos nos dedos dos pés, das mãos e nos braços. O mesmo para o coração, mente, e alma. E nunca muda. É sempre a mesma música. Sempre os velhos sorrisos, o mesmo violão, o abraço apertado, e o mesmo perfume. Vá lá, também não mudei muita coisa... Ainda trago aquele olhar de esperança, a casa com piscina, e o ouvido de pinico pra você falar o que bem entender sem sequer pensar antes.
Vai ver é por isso que você sempre volta. Vai ver por isso que eu sempre aceito seu retorno. Por você ser o único a não se importar. Ou por ao menos se esforçar em parecer assim.
Mas chega uma hora que enjoa, sabe? Você não arrisca uns passos diferentes, e eu fico admirada vendo os outros casais rodopiando pensamentos alheios na pista. Se ousa é só escondidinho, só eu vejo, e quando comento, ninguém acredita...
Malandro é o pato. É você. Faz ciente que desacreditariam quando eu contasse, caso eu contasse, e no final eu acabo desacreditando também... Sobramos, finalmente, eu, minhas expectativas, e um salão cheio de casais deliciando uns aos outros.
Tudo bem por mim, ótimo assim. Enquanto você me deixa no banco pra pagar bebida pra outra (ou pra ficar se querendo em frente ao espelho do banheiro), sempre aparece um bonitão, que me tenta de verdade, e esse sim... Esse sim faz rodopiar o pensamento dos outros. Dança coladinho, delicinha.
Mas você volta, você sempre volta. É só perceber que eu já tô quase pegando carona com meu novo amigo e vem voando atrás do prejuízo...
Você não precisa nem se empenhar. Não se preocupe com o paletó, com o sapato... Pode deixar que eu me arrumo por nós dois, menino. Não me venha com flores, nem cartas longas demais, nem com músicas dedicadas... Eu me declaro por você. Pra você. Só por você. Mas não espere exclusividade... Aliás, não espere nada. Não espere absolutamente nada. E se conseguir, me ensina?
... já faz quatro anos, menino. E se tem uma coisa que eu não vou esperar, é essa palhaçada completar mais um aniversário...
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