O tempo me marcou a alma com algumas coisas da vida.
Detalhes no escuro de olhos fechados, luzes apagadas; um esconderijo. Gramas aconchegantes, corações maltrapilhos em caminhos descalços. Um amor que me sorria com o meu lado direito da boca quando lhe pedia que me sorrisse. Um menino com medo de crescer que me dava a mão vez por outra pra que eu desistisse de fugir e esquecer. Os dentinhos tortos da minha criança favorita. Uns poucos amigos e nossos vários dias juntos. Meus milhares de planos abandonados e retomados com o passar dos anos.
O cantinho, embaixo do calceiro, perfeito pra se falar no telefone. Um bonitinho de casaco vermelho e perfume doce que embriagou muitas das minhas manhãs e rodopiou meus pensamentos sempre que quis. Uma conversa no meio fio de uma cidade de interior com o futuro melhor amigo há anos atrás. As tragédias imaginadas em nome do medo que reinava sempre que as coisas davam certo demais. Uma senhorinha acenando adeus sempre da mesma calçada, do mesmo jeitinho, pelo menos três vezes ao ano.
Minha loirinha doida expressando seu medo da morte, sem saber que ambas temíamos a mesma coisa, e que o medo dela só agravava o meu. Meu vício nas pessoas. Os períodos de abstinência. A cura. O amigo revolucionário que era capaz de mudar o mundo do ensino, tamanho era seu desejo de fazê-lo e a delícia com que anunciava seus planos. Uma família muito querida que foi agregada a minha com o tempo.
Laços formados. Amigos distantes. Gargalhadas dadas. Bons olhos. Bons companheiros. Sempre bons amores. Despedidas difíceis. Chegadas agradabilíssimas. Pés acelerados, braços abertos e um sorriso pra tudo e qualquer coisa.
Meu passado é todo encruzilhadas, confusões e fugas. Não lamento a viagem, tampouco o destino... Cada escolha; uma renúncia - como gosto de pensar e dizer. Acho que sempre soube exatamente do que abrir mão. Guardando, sempre, um grão de lembrança pro futuro.
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