Seus passos ritmados como sempre. Ela sabia que era ele quem chegara pelo barulho de seus sapatos no assoalho. Fingia que nem ouvia. Ele sabia. Entrava no cômodo em que ela estava - e ele sempre sabia o cômodo em que ela estava - e a surpreendia com um beijo na nuca, um abraço, a pegava pela cintura e a suspendia no ar. Eles tinham aquele amor que o mundo todo buscava. Sabiam disso também. Sentiam-se imensamente privilegiados por se amarem tanto assim, e eternamente gratos à força externa que os tinha apresentado. Se era o destino, se Deus, se acaso... Nunca saberiam. Mas não se preocupavam. Tinham coisas mais sérias com o que se preocupar. A compra do supermercado, por exemplo. Que livro comprar depois de terem terminado o que liam. Que filme locar no final de semana. Com que casal de amigos sairiam. Divertiam-se quando viam que todos se esforçavam pra parecer perfeitamente bem, tudo pra competir com a sincera harmonia com que eles viviam a vida. E o amor.
Melhores amigos desde o segundo que se conheceram. Sem brigas. Sem traumas. Os bilhetes dela nos bolsos de seus casacos, rodapés de livros, revistas, jornais... Lembrando-o que muito o amava e que sem ele a vida não seria o que era. E ela não poderia aceitar do mundo nada menos que ele. Como se contentar com pouco quando já se teve muito? E tinham.
Mas a alegria perde toda sua essência quando não se precisa lutar por ela. Quando não vem acompanhada do gosto de ter sido conquistada. O mundo não os acostumou a ganhar as coisas de bandeija. E eles ganharam.
Certo dia ele acordou mais cedo, e não a beijou. Ela acordou minutos mais tarde com o barulho do chuveiro. Tomaram café da manhã sem nada dizer. Foram trabalhar. No almoço só decidiram quem ficaria com o que. Ela ficou com tudo.
Com a porta fechada, do cômodo que ele sabia qual era, ela escutou seus passos no corredor, acompanhados do escorregar das rodas da mala. O bater da porta. O silêncio da despedida que não deram ficou ecoando por longas semanas pelo apartamento. As palavras que não foram ditas escritas nas paredes. E o último beijo que não foi dado nos lábios dos dois. Mas foi assim.
Fim.
Ou só até.
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